terça-feira, julho 07, 2020

Existem ligações invisíveis entre pessoas que uma vez construídas elas não se desfazem, sempre lembraremos delas num momento importante, num turning point. Nem sempre tem a ver com laços de parentesco ou amizade, pode até ser que a pessoa que mudou seu rumo, você sequer conheça, oficialmente. Pode ser que sejam pessoas que se encontrem uma única vez, num acontecimento fortuito. Alguém que pediu um cigarro na rua e houve uma troca de olhares - você tem um cigarro? Eu não fumo. E entre estas duas frases, houve uma revelação. Alguém que sentou no mesmo banco de praia que você. Você e aquela pessoa desconhecida, ficaram um tempo olhando o mar, cada uma a seu modo e então ela abriu a bolsa e tirou um livro e era o mesmo livro que mudou sua vida, tempos atrás. Você vê o livro e lembra de ter decidido como queria viver. Ver o livro deu a dimensão do quão distante você foi parar desse desejo. E então, decide voltar. Alguém que olhou para a lua na mesma hora que você. Traçou o mesmo movimento no espaço e no tempo: olhou para o céu e então para a lua, a enorme lua de morango e ato contínuo, olhou aleatoriamente para um lado e, ali estava você. Que olhou para o céu e então para a lua, a enorme lua de morango e ato contínuo, olhou aleatoriamente para um lado e, ali estava o outro. Ali se construiu uma ponte entre lua e humanos e entre humanos e suas existências. Sua vida e a vida daquela pessoa foram transformadas por uma sutil sincronia. Um segundo e a vida te deu a dimensão exata do lugar que ocupa nela. Você afinal é essa pessoa e apenas o que é belo para você - e não importa mais se alguém entenderá, aceitará ou reconhecerá -, é que vai guiar a sua vida. Você não pode mais escapar da sua beleza, da sua lua no céu. Tenho essa fantasia de ter certeza - essa é a fantasia, a certeza, de que nós nunca saberemos quem é que realmente muda o nosso destino. Aparentemente pode ser um grande amor ou a maldade de uma mãe, uma viagem ou a doença de um filho mas aposto mais nesses momentos aonde um humano olha para outro humano, sem defesas, sem resistência, sem expectativas. Seremos apenas corpos de afetos, pegos desprevenidos, vivendo um momento grandioso, numa situação banal. A pessoa que me pediu um cigarro, ao nos olharmos, por imponderável, fez com que eu tivesse contato e afirmasse tudo o que é meu. Um livro MFK Fisher, a forma de ver o mundo de Wyslawa, a voz de Miles, os quadros de Ortner, o vento e as nuvens, não uma arvore mas as pedras, o licor e não o vinho, os pássaros, as baleias, os sonhos de madrepérola, a medida exata do meu desejo. Tudo isso me pertence e eu pertenço a eles e, ao virar a direita na esquina e não a esquerda e encontrar o homem que me pediu o cigarro, de quem eu jamais saberei dos afetos, tive os meus devolvidos quando, sem aviso nós dois humanos nos reconhecemos claramente. A grande ilusão é achar que nós nos criamos sozinhos e somos independentes, a gente só se revela e só se conhece através do outro. E na mágica desse caldo de acasos que é a existência. 7 de julho de 2016, publicado ás 16:16. Está no Facebook. Eu ainda acredito.

quarta-feira, julho 01, 2020

Te desafio a ficar parado(a) :) Etta James Lauryn Hill mashup ft. Maiya Sykes & Ben Folds. dance comigo que a gente está precisando de movimento.

terça-feira, junho 23, 2020


Marina Lima (Para um Amor No Recife)

acordei com essa música na cabeça. dia inteiro chiclete .."que eu voltarei depressa, tão logo a noite acabe,, tão logo esse tempo passe, para beijar você. que eu voltarei, que eu voltarei depressa...." tempos de isolamento e pandemia, e mesmo tempos de gente rodeada de gente mas se sentindo sozinha por não estar com quem queria, esperando que tudo passe, como naquele banner, contando os dias sem saber quantos dias faltam. o titulo da música é "para um amor no recife" mas será para um amor de qualquer lugar. e no video, as imagens de um Rio que não existe mais. mas o amor ainda existe. #café



domingo, junho 21, 2020

domingo. ás vezes me dá uma saudade de casa. nessa busca por fotos para o livro, encontro fotos de 2016, fotos aleatórias, avulsas, são de quatro anos atrás mas que já parecem tão antigas. parecem de outra vida, uma outra pessoa que eu fui. agora eu sou ela e mais uma que, durante um tempo, ficamos sobrepostas, desdobradas uma em outra, mescladas e então nos fundimos, essa junção que sou agora, que sempre abraça essa angela distante, trago para perto, a mãe, a dona de casa, a vizinha, a que ia ficar para sempre olhando a vida pela janela, já não tinha mais tempo, aos 58 anos. publico no instagram, as fotos que achei, faço borda de fotografias da kodak. minha janela, minha mão gordinha sobre a colcha preferida,o anel que hoje cai do dedo. dos meus objetos de afeto, a caixinha coração em papier marchê. das fotos, a colcha já não existe mais, o coração está no guarda-móveis dentro dele guardo anéis, uma tornozeleira e um monóculo com foto de infância que, um dia, espero rever em cima de algum outro móvel novo, ao lado de uma janela ao sol da tarde que é quando bate essa luz. a janela, quando a chuva batia de frente e eu ficava ouvindo o barulho em paz, emocionada, mirando o morro e sua floresta, eu sei que nunca mais.
eclipse, 2020. image: reuters

terça-feira, junho 16, 2020

eu tinha uma história de anjo pra contar.

chris went

try to have fun. as energias andam pesadas e baixas, low vibration. acho que peguei um veio gringo na noosfera, porque durmo pensando numa questão e acordo do sonho ouvindo uma voz falando comigo em inglês. algum caboclo americano. quem sabe é meu pai? scott morreu deixando coisas por dizer. ando meio drenada de energia, são os tempos, a gente se cansa fácil, difícil respirar, fica confusa por tanta interferência do meio ambiente que está caótico. se eu facilito entro num modo muito sério, plutoniano, i have a happy personality with a heavy soul. ontem mesmo me debatia com uma questão que se arrasta e que vai ficando cada vez mais sofrida então hoje acordei ouvindo assim, relax, go with the flow, try do have fun. eu comecei a rir, óbvio. comecei a perceber que ando complicando coisas que deveriam ser simples. coisas prazerosas que viram motivo de angústia viram compromisso, no mau sentido. "simplify, then add lightness." era pra carro mas serve pra tudo. Então hoje de manhã peguei o mapa e fui viajar, ver aonde quero ir ter momentos felizes. eu vou bem sozinha, sempre soube quea minha tribo é bem pequena mas quero minha familia de alma comigo, tenho tido essas sensações, de um tempo pra cá, aproximações. que sejam bem-vindos, os companheiros, as amizade generosas desse último ciclo da vida. mas esse é outro assunto.


a vida é isso mesmo, ela dói. as vezes eu quero escapar, as vezes a gente escapa. Vezes em que o sentimento é tão intenso que eu vou no sentido contrário, me afasto, bloqueio. Mas não adianta porque a vida está aí, ela chama de volta e continua. em algum momento  vou ter que encarar, ninguém consegue ser infeliz por muito tempo, o coração fica batendo, batendo, ele avisa, mesmo que voce tenha enterrado o pobre embaixo de toneladas de concreto. voce sabe que ele está ali, e se eu não ouvir,  morro, já aprendi o que é morrer em vida, não me escutando, não ouvindo meus próprios passos, vivendo a vida dos outros, o sonhos dos outros,  tem horas que a gente não cabe mais no lugar. difícil se despedir de onde foi feliz, se sentiu segura, difícil se despedir do que um dia foi o amor completo, a razão da vida, e a gente queria continuar mas já não cabe. Eu olhei em volta e era tudo  tão familiar e bom.  mas já não serve, é estagnante, é armadilha, é opressão, é só espera vã. È como quando a gente é criança e cresce e a roupa já não cabe, tive um vestido aos nove anos, era um tubinho rosa, de casinha de abelha e um laço de seda, lembro hoje, lembro sempre, um dia não me cabia mais, não entrava, não fechava, eu tinha crescido, chorei, chorei, depois segui vida, acho que sou assim desde menina,  quero ficar mas a vida me leva. é para um lugar melhor depois, é para ser mais feliz, é para cumprir destino, evoluir, amar mais profundamente,  fazer mais sentido, cumprir os ciclos, as fases, sentir que está vivendo de  verdade, e a paz que isso traz no final, no novo fim, no novo começo, na plena certeza do continuar daqui, Mas a vida dói,  mesmo nos dias mais felizes, mesmo quando é seguro, mesmo quando é encontro. Então aceita que dói menos. 

terça-feira, junho 09, 2020

vidro e lágrimas.
diário. estou aprendendo a fazer narrativas. na verdade, esse é o nome novo para uma coisa que a gente fazia antes. narrativas não sei o quê poéticas, imagéticas, etnográficas, autopoesis, enfim, a gente aprende a contar uma história que até então parecia só um monte de imagens estanques, é divertido. acho que era o que fazia no fotógrafos brasileiros já, sem saber, o encadeamento das imagens e tal, daí que comecei a ver as fotos que fiz ao longo desse tempo de viagem e tem sim um monte de história pra contar através das imagens e eu não me dava conta, na verdade nunca foi intencional, mas olhando o bojo fica claro desde quando fotografei as tres torres que apareciam no morro em frente a minha janela por dez anos, sem saber. fotografei aeroportos,hoje mesmo publiquei no instagram uma que significa mais pra mim em termos de despedida do que todas as outras, quase não se vê imagem, mas o sentimento que tem ali, pra mim é mais do que em qualquer outra foto, porque agora é isso o sentimento, antes jamais publicaria uma foto assim, fotografei rodoviárias, fotos fora de foco, fotos tremidas, através da janelas dos onibus, as paisagens passando velozes, nunca nem mostraria e agora é parte principal do meu trabalho do livro. não sabia que tenho atração por folhas na calçada, montes de fotos, lugares diferentes, folhas pelo chão em são paulo, natal, belém, rio, joão pessoa, salvador. fotografei gente sozinha em todas as partes do brasil, não sozinha desvalida, sozinha nas cenas, nas paisagens, tem muita gente sozinha nas minhas fotos.'e tem uma sensação de hiato, de tempo em suspensão mesmo, de tempo imaginado, de tempo imaginário :) enfim, ter que fazer esse livro, que eu acho que não vou conseguir a tempo, porque cada hora eu vou por um caminho diferente e ainda não consegui chegar numa fio condutor, mas o mais importante no momento é que essa pesquisa em cima das minhas fotos estão mostrando um caminho de volta pra mim mesma, em algumas áreas esquecidas, algumas que eu nem sabia que eu existia dessa forma, quanto de gostoso é isso? poder se rever. se ver com outros olhos, e tomar outras direções. quando voltei a circular pelo mundo da fotografia eu tinha esse hiato de 30 anos. custei a entender e principalmente a aceitar que agora era tudo ao contrário do que tinha aprendido, ficava chocada quando mostrava o que entendia por narrativa e me cobravam minha subjetividade na pauta. como assim, é pauta, que mané subjetividade na pauta, feio e errado. e agora faz parte, e essa aproximação da fotografia como plataforma de arte, fiquei de cara, que mané artista visual gente, e tudo o que era reprovável agora era o super legal de fazer. e na verdade é mesmo o super legal de fazer, a gente que era engessada, vivia num quadrado que era ser fiel a realidade e essa realidade na verdade nunca existiu. hoje não tem mais limite os por outra, não existe mais fronteira. e hoje sei que tudo que neguei ou discordei quando voltei a tratar com fotografia, agora no seculo 21, ironicamente se tivesse ainda continuado no meio de fotografia é quase certo que eu ia por esse caminho mesmo, usar a plataforma , fotografia, para me aproximar da arte. estou pirando nas fotos, está muito divertido. e rico, nao quero mais me afastar desse, pode chamar de, fazer artístico? acho que vou fazer muitos livrinhos daqui por diante, como um hobbie, quero ficar pra sempre. se eu vou resolver bem, aí já é outra história. #lovemylifemode

segunda-feira, maio 04, 2020


Diário de ontem. Roubo flores na rua. É uma tradição. Diz que São Paulo é uma cidade de concreto, aham, na minha rua contei 56 espécies de flores diferentes nos canteiros. 56. É a disneylandia das ladras de flores de jardins. ás vezes volto para casa praticamente com uma corbeille. Dia desses fui ao mercado que fica mais longe e entrei pela Zequinha de Abreu que só tem casarões e os jardins se projetam nas calçadas. Ou seja. A quarentena segue, o insuportável lá fora, também. Fico atenta a amigos que estão entrando em angústia, tento, de novo, explicar sem ser com textão, com outras palavras, que a minha questão não é se alienar, negar a realidade para não sofrer, ao contrário, e é saber qual é o momento que você quer perpetuar, quem você quer ser? O que vai sobreviver ou o que vai sucumbir? Quero que você, tendo passado por esse horror ao qual todos estamos expostos, tanta desumanização, crueldade, violência, seja quem vai sobreviver e vai ser quem vai contar a História, não com sentimento de alívio, que é para não esquecer, mas com clareza. Daí que qualquer coisa para não perder a saúde emocional está valendo, a começar por parar de se julgar e pensar o tempo todo em tudo, no que é ou no que deixa de ser. Quer falar com o amiguinho imaginário que agora te acompanha na quarentena, fale minha querida, quer falar sozinho brigar e chorar com ninguém, altos diálogos com o nada, dou força, ao contrário de achar pirante, sua sanidade está garantida, como o amigo que está tentando comunicação telepática com os gatos. E abelhas. outro dia aqui por perto tinha alguém recitando Shakespeare, aos berros, cante ao vivo desafinando horrivelmente, (foi mesmo horrível). Planejar viagens que nunca serão feitas, desejar amores que serão sempre impossíveis, utopias alimentam, assim como os banhos longos depois de ter feito a máscara facial de manteiga de cacau, mas que de tão gostosa acabou passando no corpo inteiro mesmo. Pesquisar casamentos felizes, compêndios de fantasia, manual de como se tornar invisível, está valendo. Eu danço. De repente comecei a dançar um dia aqui, danço quando acordo, danço o dia, danço quando vou dormir, instintivamente, intuitivamente, memória do corpo, dos anos de ballet. Dia desses na apresentação do filme da Claire Denis o Dodô falou da filosofia da corporeidade de raiz africana, que diz que o nosso corpo é o maior material de aprendizagem do mundo. Se você quer conhecer o mundo nas coisas mais profundas da vida como, quem nós somos, o que é a vida, por que estamos aqui, a resposta é: dance. É colocar o seu corpo no mundo, dançar em irmandade com a dança do mundo. Tudo dança, o vento está dançando, os átomos estão dançando, em mim, em você, no universo, dance o seu corpo para encontrar seu sentido e resposta. Dançar com o mundo e com um outro, para seu corpo existir nele. Quanto de bonito é isso? Então eu danço, e eu canto e escuto as músicas que me levam. E depois que eu danço e canto e escuto, sinto que a vida é um grande gesto poético e que ir ao mercado só para comprar água e chocolates, ou alguma coisa assim tão absolutamente banal é que me sustenta emocionalmente, alimenta minha serenidade, tão necessária, porque a gente agora é uma ilha, cercada de dor por todos os lados. Valeu, Aldir <3

domingo, abril 26, 2020

D'Angelo's Earth, Wind and Fire cover, Can't Hide Love (Live)

domingo. ontem fiquei sem sono, não foi exatamente insônia, foi um dia que precisava ser diluído. duas e tal brincava fazendo fotinhas no instagram. ficar ouvindo earth, wind and fire também não ajudou muito. não dá pra ficar parada. dei boas risadas dançando sozinha no quarto com uma música que não escutava há muito tempo e que dancei em todas as festinhas, bailinhos e discotecas nos anos setenta e que trouxe lembranças em cascata. fiquei viajando nelas, anotei algumas pra não esquecer novamente, não lembrava desse cara, como a gente faz caras e bocas quando é adolescente, não lembrava desse lugar em cabo frio, e mais umas já adulta, fazer post depois, quando vi já estava claro lá fora, nem vi a hora, como naquele dia em que a gente foi para a areia ver o sol nascer depois da papagaio's, também não lembrava, foi bom dançar e rir e lembrar, relaxou mas não ajudou a dormir coisa que pretendo fazer em breve. por fim na falta do que fazer, umas duas da manhã, eu resolvi eu mesma cortar o meu próprio cabelo. não foi uma boa ideia como demonstrado na foto abaixo. bom dia pra você.




sábado. acordei tarde, fui seguindo o fluxo da vida, a gente vai indo assim numa dor e vivendo. é uma dinâmica ciclotímica, numa hora a gente cai na risada com o meme do ministro da saúde e na outra chora com a notícia do amigo que estava bem ontem e morreu hoje de manhã. Uns dias são melhores que outros, entretanto ambos pedem o tempo todo, demandam, que eu lembre de tudo que já passei na vida, para dimensionar a dor de agora, dar perspectiva a ela, aceitá-la e seguir. a internet tem ajudado a passar os dias, se é quarentena pelo menos não é isolamento, hoje também foi divertido. estou subindo o filme do grupo, um doc. sobre o cinema novo que na verdade é um belíssimo filme com trechos de todos os filmes, pra mais tarde, fui passear em Cuba, agora estou assistindo a live do João Bosco, troquei receitas de pães e bolos de liquidificador, saí pra dar uma caminhada, aproveitei e comprei frutas e lindos tomates, ando colecionando parafusos gigantes que os caras que fazem a manutenção das redes de luz, deixam pelo caminho, não sei exatamente que utilidade dar a eles mas são tão bonitos. Estou apaixonada pela delicadeza da primeira drag queen que aparece num video onde elas dublam uma música da Vera Lynn, We'll meet again, vi no instagram do Jôka, dá vontade de abraçar, bom eu ando com vontade de abraçar todo mundo, então meio que não conta mas acho que daríamos boas risadas juntas e provavelmente em algum momento ela me chamaria de mãe. É um dado de realidade, assim, um olha essa é que é a real, a vida é isso, no meio dessa devastação toda, um encontro gentil, pessoas tomando chá, ou vodka, em torno de um amor puro. vou voltar pro show do joão bosco no youtube, que ainda está rolando. dei uma lida aqui antes de publicar e acho que meu texto está parecendo o discurso do bolornaro de ontem. *suspiro*. fiquem em casa.