quarta-feira, outubro 29, 2008



"Os 1.640.970 do Rio de Janeiro.

CONVIDADO A DISPUTAR A PREFEITURA DO RIO pela coligação que
juntou o PV, o PSDB e o PPS, o deputado federal Fernando Gabeira
condicionou a aceitação a cinco pré-requisitos. Primeiro: a campanha
deveria ser limpa em todos os sentidos. Sem faixas nem galhardetes
pendurados em postes, sem panfletos nem outras velharias que poluem
a paisagem urbana. E sem ataques pessoais, truques eleitoreiros e
outras espertezas que poluem a paisagem eleitoral. Segundo: o programa
do candidato passaria ao largo de questões nacionais para se restringir
a propostas e idéias vinculadas aos problemas da cidade. Terceiro: tanto
as quantias arrecadadas quanto os gastos de campanha seriam divulgados
diariamente pela internet, com a especificação da origem e do
destino do dinheiro. Quarto: se chegasse ao segundo turno, a coligação
não negociaria alianças nem adesões. Quinto: alcançada a vitória, a
montagem do #secretariado não obedeceria a imposições partidárias ou
conveniências políticas. Em vez do indecoroso loteamento de cargos, o
prefeito usaria o critério do mérito para a montagem do primeiro escalão:
seriam secretários municipais os melhores e mais brilhantes. Alguns
camuflando o espanto, os líderes dos três partidos toparam. Parece
mentira, decerto pensaram. Parece mentira, concordaram os eleitores.
Segundo todas as pesquisas, Gabeira largou com menos de 5% e entrou
na reta final da campanha com índices pouco animadores. Faz sentido.
Exauridos por bandalheiras protagonizadas pelas quadrilhas de pais
da pátria, afrontados pela descoberta de que a imunidade parlamentar
virou salvo-conduto forjado para livrar da cadeia bandidos homiziados
no Congresso, os brasileiros desistiram da esperança como profissão
e decidiram que os políticos eram todos iguais. Só a duas semanas da
eleição milhares de cariocas compreenderam que havia mesmo um
candidato honesto, coerente, inventivo, preocupado não com o próprio
futuro mas com o destino da cidade humilhada pela procissão de
governantes ineptos. E cumpria o prometido: a campanha avançou sem
zonas de sombra, com pouco dinheiro, sem comitês nem papelório, sem
ofensas nem insultos. Os 839.994 votos obtidos por Gabeira no
primeiro turno escancararam duas constatações espantosas. Os três
primeiros pré-requisitos haviam sido plenamente atendidos. Mais
importante ainda, o Rio avisara ao Brasil que, apesar de tudo, a
tribo dos decentes é bem maior do que se imaginava. A passagem para
o segundo turno permitiu a Gabeira mostrar que, como estabelecera a
quarta cláusula do contrato verbal, não negociaria adesões. Até
domingo passado, o candidato foi visto ao lado de gente como Oscar
Niemeyer, Caetano Veloso ou Marina Silva. Paes submergiu em conversas
clandestinas com o porteiro do céu Marcelo Crivella, a comunista
domesticada Jandira Feghali, o estafeta petista Vladimir Palmeira
ou com os fora-da-lei do PTdoB. Na etapa final do duelo, Paes foi
amparado pela nada santa aliança que incluiu um balaio multipartidário,
o governador, o presidente da República e um pelotão de especialistas
em guerra suja. Os candidatos barrados no primeiro turno embarcaram
no iate de Paes. O resultado final demonstra que os eleitores
preferiram a onda Gabeira. Juntos, Jandira e Crivella conseguiram quase
1 milhão de votos. Entre uma rodada e outra, o crescimento de Paes não
chegou a 650 mil votos. O de Gabeira passou de 800 mil. Tudo somado,
os 1.640.970 eleitores do candidato que há três meses parecia um sonho
impossível protagonizaram o mais belo, abrangente e empolgante fenômeno
da temporada eleitoral ­ e fizeram de Gabeira uma prova de que o Brasil
decente está pronto para a resistência. Faltou platéia para comemorar
a vitória de quem será prefeito. O povo festejou nas ruas o desempenho
de quem por pouco não foi. No restante do país, ninguém se interessou
pela sorte de Paes, ninguém viu algo de novo no que dizia. Em
contrapartida, distribuídos por todos os Estados, milhões de brasileiros
juntaram-se à distância ao bom combate. Os 1.640.970 do Rio de Janeiro
transformaram o que parecia apenas uma onda num genuíno movimento
popular. O movimento já exibe dimensões impressionantes. E só começou."

Augusto Nunes

Daqui

#Pronto falei.